São tantos os sentidos. São tantas as camadas. Há algo de inclassificável quando falamos da arte de Carlos Henrique. Algo que escapa à categorização, porque ela não nasce para ser entendida, mas para ser sentida – como quem tateia no escuro em busca de um afeto perdido. Suas obras não oferecem respostas fáceis. Elas provocam. Elas cutucam. Elas revelam os rastros de um corpo em dor que ainda pulsa desejo, reinvenção, silêncio e fé.
Durante 52 dias de internação no Hospital da Restauração Gov. Paulo Guerra, com as pernas atravessadas por parafernálias metálicas e os sentidos encurralados por paredes frias, o artista encontrou no desenho e na criação digital não apenas um escape, mas um campo de substituição: onde antes havia o toque, o abraço, a dança, agora habitavam pixels, gestos contidos, formas geométricas e corpos masculinos atravessados por histórias de resistência e desejo.
Aqui, a arte substitui os prazeres: o carnal, o espiritual, o social. E o tempo? Este se deforma – sendo preenchido por camadas de memória e imaginação que operam como tentáculos na tentativa de compreender o que se vive quando tudo ao redor parece ruir. Mas será mesmo que é preciso compreender? Ou apenas deixar viver – e fazer viver?
Em Fronteiras da Sanidade, cada trabalho exposto é uma fissura aberta nas certezas. Um convite para olharmos o avesso do sensível: o que existe quando deixamos de buscar um ponto em comum com o mundo externo e passamos a escavar nossas paisagens internas? Há beleza, mas também angústia. Há fé, mas também colapso.
A arte de Carlos não está preocupada em ser compreendida. Ela se apresenta como testemunha de um processo. E se testemunhar é resistir, então sua produção se torna também um gesto político, espiritual, radicalmente pessoal – onde os afetos não são apenas traços, mas encruzilhadas de valores, dores e escolhas.
Em tempos de colapsos múltiplos, essa obra nos lembra que há outras formas de existir. E que mesmo nas pausas impostas pela vida, a criação pode ser um modo de seguir em frente.
Alder Augusto da Silva
Curador